O Brasil viveu, em 2025, um ponto de virada que poucos mercados no mundo conseguiram atravessar em tão pouco tempo: a transformação de um ambiente historicamente informal — e muitas vezes desorganizado — em uma indústria regulada, monitorada e, cada vez mais, orientada a boas práticas. A regulamentação plena das apostas esportivas e dos jogos online, iniciada em 1º de janeiro de 2025, não apenas redesenhou o cenário para empresas e operadores, como também ajudou a iluminar um tema que já estava presente no cotidiano de milhões de brasileiros: quem é o apostador do Brasil, como ele se comporta, quanto movimenta e qual é a diferença real entre o jogo legal e o ilegal.
Mais do que um fenômeno de entretenimento, apostar se consolidou como um hábito social e digital — e, como todo movimento de grande escala, exige compreensão e maturidade. A boa notícia é que 2025 foi, acima de tudo, o ano em que o Brasil começou a medir com mais clareza o setor, deixando de lado achismos e passando a discutir números, perfis e responsabilidades de forma mais estruturada.
Este especial reúne os principais dados disponíveis, estudos de referência e leituras de mercado para traçar um retrato atualizado do apostador brasileiro — incluindo as apostas em plataformas reguladas, o consumo em ambientes irregulares e a explosão cultural dos jogos estilo “tigrinho”, como o Fortune Tiger, que se tornaram símbolo de uma nova era de jogos mobile e de alta viralização.
A virada de 2025: mais do que regras, um novo ambiente de confiança
A regulamentação das apostas no Brasil representa, em termos práticos, um processo de maturação institucional. A partir de janeiro de 2025, operar legalmente no país passou a depender de autorização formal da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Com isso, tornou-se possível construir uma linha mais clara entre plataformas que atuam dentro das regras brasileiras — com KYC, controles, transparência e obrigações fiscais — e aquelas que seguem fora do perímetro, muitas vezes usando estruturas pouco verificáveis, hospedagens fora do país ou mecanismos alternativos de pagamento.
E embora o debate público frequentemente reduza a questão à dicotomia “apostar é bom ou ruim”, o avanço regulatório trouxe um mérito importante: pela primeira vez, o foco deixa de ser o julgamento moral do hábito e passa a ser a construção de um ecossistema que garanta proteção ao usuário, integridade e previsibilidade econômica.
Ao mesmo tempo, o novo marco obriga o país a enfrentar uma realidade complexa: o Brasil já tinha milhões de apostadores antes da regulamentação e, portanto, o desafio central de 2025 foi organizar e tornar confiável aquilo que já existia.
Quem é o apostador brasileiro: um retrato amplo e realista
Os melhores retratos demográficos disponíveis mostram um apostador que está longe do estereótipo de “apostador profissional” ou de um público restrito. A aposta no Brasil é popular, transversal e digital, com alto alcance entre jovens e adultos.
Um levantamento de grande base do DataSenado, por exemplo, apontou que aproximadamente 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais haviam apostado em plataformas de apostas no período de 30 dias anterior à pesquisa. Em volume absoluto, isso corresponde a cerca de 22,13 milhões de pessoas, o que posiciona as bets como um dos principais fenômenos digitais de massa do país.
O mesmo estudo trouxe recortes que ajudam a entender o perfil predominante. Entre os apostadores, a maior parte é composta por homens, que representam cerca de 62% do público pesquisado. O recorte etário se concentra principalmente entre 16 e 39 anos, uma faixa que combina alto acesso ao celular, forte presença em redes sociais e familiaridade com pagamento instantâneo — condições ideais para o crescimento do setor.
Mas talvez um dos dados mais relevantes seja o perfil de renda: há uma presença significativa de apostadores entre brasileiros que recebem até dois salários mínimos, e uma parcela expressiva declarou gastar até R$ 500 em apostas no mês analisado. Isso não significa que apostar seja um comportamento exclusivo de classes mais baixas — o setor alcança todas as rendas —, mas indica que parte importante do consumo ocorre em faixas de renda com menor margem financeira.
Essa constatação não é um “alerta” no sentido pessimista. Ela é, na verdade, uma informação fundamental para um mercado regulado: significa que políticas de jogo responsável, comunicação clara e mecanismos de proteção precisam ser pensados para a realidade social do país — e não importados de modelos estrangeiros sem adaptação.
Quanto dinheiro é movimentado: por que o Brasil começou a enxergar melhor o tamanho do setor
Um dos pontos que mais chamaram atenção no debate público de 2025 foi o volume de dinheiro movimentado. A dimensão do mercado é grande — mas os números variam conforme a metodologia usada para medir.
Quando falamos em apostas, existem pelo menos três formas de entender o impacto econômico:
- o valor total que entra nas plataformas (transferências brutas);
- o valor que “fica” com os operadores (receita);
- o gasto líquido do consumidor (o que ele perde de forma consolidada, descontando prêmios).
Esse detalhe explica por que algumas estimativas parecem enormes e outras mais moderadas.
Um estudo associado ao Banco Central, baseado em transferências via Pix para empresas identificadas como recebedoras típicas do setor, apontou que em agosto de 2024 — antes do início da regulação plena — 56 empresas receberam R$ 20,8 bilhões em transferências, e os meses do período analisado oscilaram entre R$ 18 e 21 bilhões por mês.
Esse dado, por si só, já mostra a escala da atividade. Mas o estudo adiciona um ponto essencial: estimou-se que cerca de 15% do valor apostado ficaria com as empresas, como retenção média — o restante retorna ao apostador em forma de prêmio. Assim, os números brutos mostram movimentação, mas não significam necessariamente “perda” total do consumidor.
Além disso, o recorte demográfico no estudo do Pix indica um comportamento bastante comum em mercados de aposta: muitos apostam pouco, poucos apostam muito. O levantamento menciona cerca de 24 milhões de pessoas fazendo ao menos uma transferência no período analisado. Entre jovens, a mediana mensal estava em torno de R$ 100 por pessoa, enquanto perfis mais velhos atingiam médias mensais que poderiam passar de R$ 3.000.
Em 2025, durante discussões públicas e reportagens relacionadas ao tema, passou-se a trabalhar com estimativas ainda maiores para o Brasil: análises associadas ao Banco Central indicaram que brasileiros estariam apostando algo entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês no início do ano.
Não significa que 2025 “criou” esse volume: significa que, com o mercado regulado e a atenção institucional, o país começou a medir melhor a amplitude real do setor.
Legal e ilegal: a linha existe, mas ainda não é intuitiva para o usuário comum
Talvez o ponto mais importante do debate de 2025 não tenha sido o valor movimentado, mas a convivência entre plataformas reguladas e plataformas fora das regras.
O que é curioso — e revelador — é que boa parte do problema não está na intenção do usuário, mas na dificuldade de distinguir, de forma simples, quem é regulamentado e quem não é.
Uma pesquisa de 2025 sobre incidência de apostas ilegais mostrou que 78% dos apostadores consideram difícil identificar quais plataformas são reguladas, e 72% afirmam que nem sempre conseguem checar todos os detalhes necessários para confirmar a regularidade.
Ou seja: o risco de jogar em ambiente irregular é alto mesmo para pessoas que prefeririam operar apenas em plataformas seguras e autorizadas.
Esse mesmo estudo apontou que uma parcela expressiva dos apostadores declarou ter apostado ao menos uma vez em plataformas que estavam fora do perímetro regulado, e que muitas pessoas relataram já ter depositado em sites posteriormente considerados falsos ou irregulares.
Ao mesmo tempo, um dado muito positivo emerge desse tipo de levantamento: mesmo entre aqueles que tiveram contato com plataformas irregulares, há forte apoio ao combate ao ilegal. A pesquisa indica que 87% dos apostadores concordam que o poder público deve atuar para combater plataformas fora das regras.
Essa combinação é importante porque mostra que a sociedade não quer um mercado “terra de ninguém”. Ela quer um ambiente organizado — e 2025 foi o primeiro passo para construir isso.
O fenômeno “tigrinho”: quando o jogo virou cultura digital
Se as apostas esportivas dominaram o cenário nos últimos anos, o Brasil assistiu em paralelo à ascensão de um outro fenômeno: os jogos de cassino mobile, popularmente associados ao “tigrinho”, como o Fortune Tiger.
Esses jogos não se espalharam apenas por publicidade — eles se tornaram um elemento cultural, presente em vídeos curtos, streams, comunidades, grupos de mensagens e na narrativa da “virada rápida” de dinheiro.
Um dado que ajuda a entender esse alcance vem da Pesquisa Game Brasil (PGB) 2025. Segundo os resultados divulgados na imprensa, 38,2% dos brasileiros disseram consumir jogos classificados como “jogos de sorte e derivados” — categoria que abrange jogos do tipo slot e similares.
Mais significativo ainda: o levantamento indica que 89,9% dos jogadores desse grupo usam dinheiro real, o que reforça que não estamos falando de um “game casual” puro, mas de uma experiência de aposta digital.
O perfil de gasto também chama atenção. Entre os jogadores que apostam com dinheiro real, 34,6% afirmaram gastar entre R$ 51 e R$ 200 por mês, e 8,6% disseram gastar acima de R$ 500 mensais. A frequência segue a mesma lógica de hábito: 39% jogam pelo menos uma vez por semana, e uma parcela menor, mas relevante, joga quatro ou mais vezes por semana.
O “tigrinho”, nesse sentido, representa algo maior do que um produto: ele simboliza como a indústria de apostas se conectou a um ecossistema digital de alto alcance, no qual entretenimento, redes sociais e mobilidade se misturam. E isso reforça a necessidade de regulação, clareza e educação do usuário — não como proibição, mas como amadurecimento.
Por que 2025 foi um marco: o Brasil passou a medir, discutir e construir
Se fosse necessário resumir 2025 em uma frase, seria algo como: o Brasil deixou de apenas consumir apostas e passou a organizar o setor com ferramentas concretas.
Foi também um ano em que instituições começaram a se preparar para produzir estatísticas ainda melhores. O próprio IBGE sinalizou que passaria a medir gastos com bets na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2024/2025, um avanço que tende a melhorar a leitura sobre impactos financeiros e comportamento do consumidor.
Ao mesmo tempo, órgãos públicos e parceiros reforçaram ações e acordos para combater o mercado irregular — incluindo cooperação voltada a bloqueio, fiscalização e estruturação institucional.
Nada disso significa que os desafios desapareceram. Mas significa que o país entrou em uma fase mais madura: a fase em que se pode discutir o setor com seriedade, dados e foco em qualidade.
Um perfil em transformação: o apostador brasileiro de 2025, em poucas linhas
O apostador brasileiro de 2025 é, majoritariamente, um usuário digital, acostumado com Pix, com redes sociais e com experiências gamificadas. Ele é mais jovem do que se imagina, mais presente em faixas de renda popular do que muitos supunham e, ao mesmo tempo, cada vez mais consciente do valor de um ambiente seguro e regulado.
Ele aposta por entretenimento, por emoção, por identificação com esportes e também pela promessa — muitas vezes exagerada — de ganhos. Ele circula por diferentes formatos, do esporte ao cassino digital, e a viralização dos jogos tipo “tigrinho” prova que a indústria não se limita ao futebol, mas se integra ao ecossistema gamer e mobile.
O mercado regulado, nesse cenário, tem um papel central: aumentar confiança, reduzir informalidade, proteger o usuário, criar estabilidade e permitir que o setor exista com responsabilidade. E 2025 foi o ano em que esse processo começou a se tornar palpável.
O Brasil ainda está no início dessa trajetória, mas a direção é clara: apostar já é um comportamento de massa — o que muda, agora, é como o país decide lidar com isso. E o avanço regulatório é o passo mais importante para transformar um hábito disperso em uma indústria estruturada, transparente e alinhada às melhores práticas globais.
